Bulisofias - Teoria do egoísmo generalizado

Todos nós somos absolutamente egoístas. Todos. Absolutamente. Egoístas.

Por vezes achamos que não, que não fazemos as coisas pelo nosso interesse mas sim pelo interesse dos outros. Ou então, os mais modestos concordam imediatamente (não sem um certo sentimento de culpa) mas argumentam: “Ah, claro, eu sou egoísta. Mas então e a Madre Teresa de Calcutá?”.

Todos nós somos absolutamente egoístas. Todos.

Tudo o que fazemos é, em última análise, para nosso próprio bem, porque nos faz felizes. Às vezes (idealmente, sempre), sabemos que a nossa felicidade depende da felicidade dos outros e então fazemos coisas que, aparentemente, são unicamente para bem do próximo. Mas, no fundo, nunca as faríamos se não nos fizessem sentir bem. Isto não quer dizer que não nos custem! Mas há tanta coisa na vida que custa... Ou acham que o Carlos Lopes sentiu um prazer imenso durante toda a maratona olímpica em Los Angeles 84? O Carlos corria e vencia porque isso lhe fazia bem. Tal como a Madre Teresa de Calcutá ajudava os necessitados porque isso a fazia sentir bem. Por vezes queixamo-nos de que sofremos pelos outros, de que “por nós” nunca teríamos tomado determinada opção. Treta. Se fizermos algo que não nos faz bem, pelo menos lá bem no fundo, então é porque ou somos estúpidos ou somos cegos.

Aquilo que distingue as pessoas umas das outras não é o seu grau de egoísmo, que é o mesmo (absoluto), mas sim os seus graus de estupidez e de cegueira. A estupidez e a cegueira bastam para explicar todos os comportamentos humanos.

A estupidez é a qualidade que permite que uma pessoa bem informada (com reduzida cegueira) tome más decisões.

A cegueira é a qualidade que permite que uma pessoa tome más decisões mesmo quando o seu grau de estupidez é reduzido.

As pessoas neste modelo são categorizadas em quatro grandes categorias, de acordo com a seguinte matriz, em que utilizo os sentidos convencionais de “altruísta” (egoísta de horizontes largos) e “egoísta” (egoísta de visão curta):

Cegueira
Reduzida Elevada
Estupidez Elevada Altruísta frustrado
(inconstância)
Puto inconsciente
(felicidade estúpida)
Reduzida Altruísta
(felicidade verdadeira)
Egoísta
(falsa felicidade)

Obviamente, ninguém encaixa exactamente numa das categorias, mas há-de comportar-se predominantemente de acordo com uma ou com uma combinação delas. E ninguém está condenado a viver toda a vida com os mesmos graus de cegueira e estupidez. Felizmente, tudo pode ser melhorado.

O altruísta frustrado, apesar de ter um reduzido grau de cegueira que lhe permite aperceber-se das consequências dos seus actos, devido à sua estupidez comete frequentemente erros dos quais se apercebe (porque não é cego) e que o deixam a sentir-se pessimamente. Em casos extremos, esta pessoa poderá alcançar níveis baixos de auto-estima e entrar num ciclo vicioso em que a falta de confiança em si própria não lhe permite melhorar, levando-a a continuar a cometer erros e a reduzir a auto-estima. Para melhorar, o altruísta frustrado deverá identificar (eventualmente com ajuda) as causas da sua estupidez e actuar em conformidade. Por exemplo, algumas pessoas ficam estupidificadas em situações identificáveis (exemplos típicos: ao beber demais, em momentos de stress, ao pé de alguém que afecta o discernimento, quando estão com sono, quando estão doentes). Essas pessoas deverão ter em atenção sinais de ameaças estupidificantes e evitar entrar em situações perigosas - é a famosa técnica do “não estar lá” que o mestre ensinava ao Karate Kid. Noutros casos, as pessoas não têm propriamente situações estupidificantes mas sentem mais uma estupidez constante. Então têm que reduzir essa estupidez, por exemplo procurando tomar decisões com mais ponderação, com mais tempo, seguindo processos de análise para garantir que têm em conta todos os aspectos que a reduzida cegueira lhes faz ver como relevantes, listando e revendo erros anteriores para evitar cair novamente neles, etc.

O egoísta convencional é aquela pessoa que é inteligente mas que, devido à sua cegueira, aplica a inteligência em actividades de muito curto alcance, centradas no próprio umbigo, sem se aperceber das implicações que as suas acções têm nos outros e no mundo (e nele próprio, de forma mais indirecta). O verdadeiro egoísta, aquele que é mesmo cego e inteligente, é um tipo feliz. Sente-se feliz porque, graças à sua inteligência, age de acordo com a sua forma limitada de ver o mundo e, como é cego, não identifica as eventuais más consequências das suas acções. Mas não há muitos (ou nenhuns) verdadeiros egoístas, e os que o são não podem ter a certeza de que o venham a ser durante toda a vida. Este tipo de cegueira, felizmente, não é permanente e arriscam-se a descobrir que afinal levam uma vida miserável, passando de um estado de felicidade para o oposto de infelicidade extrema. Às vezes, o egoísta tem rasgos de consciência que lhe fazem perceber por instantes que algo está mal, mas frequentemente essas ameaças de reduzir a cegueira são conscientemente colocadas de lado, espezinhadas, escondidas debaixo do tapete ou atrás da porta, porque não é nada agradável pensar demasiado e descobrir coisas más. Para melhorar, o egoísta necessita muitas vezes de ajuda. A sua cegueira dificulta uma caminhada autónoma no sentido da felicidade verdadeira do altruísta, por isso ele agradece quando alguém o desafia a ver para além dos seus curtos horizontes e lhe abre os olhos para novas realidades. Os egoístas que fazem caminhadas solitárias para o altruísmo são aqueles cujas oscilações de cegueira (baixando os níveis “normais”) os fazem sofrer e aperceberem-se de que não estão no caminho certo. A cegueira reduz-se mediante treino, procurando olhar para o mundo com olhos de ver e perceber o alcance dos nossos comportamentos.

O puto inconsciente sofre simultaneamente de estupidez elevada e de cegueira elevada e portanto comporta-se de forma casual, sem rumo. Não actua de forma muito inteligente, mas isso também não afecta a sua felicidade estúpida porque a cegueira não lhe permite perceber que alguns dos seus comportamentos têm maus efeitos à sua volta e nele próprio (tanto indirecta como directamente). O puto inconsciente é um comodista: sente-se feliz na sua estupidez cega, para quê mudar? Visto que o puto inconsciente sofre de ambas as fraquezas que afectam o egoísta (a cegueira) e o altruísta frustrado (a estupidez), a forma de melhorar será através de uma combinação do que foi descrito para esses casos: deverá reduzir a sua estupidez, evitando situações estupidificantes e procurando tomar decisões de forma mais metódica, e deverá reduzir a sua cegueira, abrindo os olhos e apercebendo-se do alcance dos seus comportamentos. Dado o grau de comodismo típico dos putos inconscientes, é importante que as pessoas à volta deles os desafiem a sair desse estado, porque tipicamente geram impunemente imensa infelicidade nas pessoas com quem interagem e é difícil que eles próprios se apercebam disso.

O altruísta combina reduzidos graus de estupidez e de cegueira e, consequentemente, vive uma felicidade verdadeira. O altruísta sabe viver a vida, porque sabe que os seus comportamentos não o afectam apenas a ele próprio mas também afectam quem o rodeia e afectam o mundo. Ele sabe que a sua felicidade passa pela felicidade dos outros. Mas, tal como o altruísta nem sempre foi altruísta, ele não pode ter a certeza de que o venha a ser sempre. Ser altruísta exige um treino constante da consciência e da inteligência de forma a combater as ameaças da cegueira e da estupidez.

Qual a utilidade de todo este modelo?

O facto de poder diagnosticar os comportamentos que vejo à minha volta, incluindo os meus, ajuda-me a compreender e a agir.

Compreender pode parecer um sentimento simpático e inútil, mas não é essa a minha opinião. Compreender permite desmistificar comportamentos, descodificando algumas das suas causas e das suas consequências. Compreender permite, por exemplo, perceber que não existem pessoas más, mas sim pessoas cegas ou estúpidas.

Agir é o que me pode levar a melhorar-me ou a ajudar a melhorar os outros. Se houver apenas compreensão mas não fizermos uso dela, então sim, concordo que é inútil.

Se vejo um comportamento estúpido, sei que não vale a pena informar a pessoa que o exibiu mas sim que é preciso demonstrar-lhe que o raciocínio que a levou a agir daquela forma não faz sentido. É preciso ajudá-la a reduzir a estupidez em futuras decisões. Se vejo um comportamento cego, sei que a pessoa precisa que alguém lhe faça ver os efeitos que o seu comportamento tem sobre os outros e, em última análise, sobre ela própria. É preciso ajudá-la a abrir os olhos.

E essa pessoa posso ser eu.

Portanto, para começar, que tal olharmos para nós mesmos a ver se nos andamos a comportar como egoístas, putos inconscientes, altruístas frustrados ou verdadeiros? Todos nós temos um pouco de cada um, mas podemos trabalhar no sentido de reduzirmos cada vez mais a nossa estupidez e a nossa cegueira e vivermos com mais sabedoria uma felicidade todos os dias mais verdadeira.

Se acharmos que podemos ajudar, porque não classificar algumas pessoas que conhecemos e procurar actuar em função das respectivas necessidades de desenvolvimento pessoal?

Um apontamento final: o verbo estar não se aplica à felicidade. As pessoas ou são felizes ou são infelizes. A felicidade é um estado constante de quem sabe viver a vida. Isto não quer dizer que uma pessoa feliz não possa estar triste ou alegre. Não só pode como deve, porque é sinal de que a pessoa está viva e sente. Mas também uma pessoa infeliz pode estar alegre ou triste, o que pode ser por vezes enganador. Também não quer dizer que possamos ser felizes eternamente sem ter de fazer nada. A felicidade dá lugar à infelicidade se deixarmos de saber viver a vida.

Sejam felizes e espalhem felicidade!