Mini-maratona

No dia 10 de Maio a Federação de Atletismo de Timor Leste (FAT) organizou um evento de estrada, para celebração do Dia da Independência, que incluía uma corrida de meia-maratona, uma corrida de 10 km e outra de 3 km (esta última para juvenis). Claro que decidi participar!

Hesitei entre a meia-maratona e os 10 km, mas a minha baixa de forma (ainda consequência de limitações físicas após acidente por excesso de velocidade em terrenos irregulares durante uma prova de Orientação em Monsanto), juntamente com o facto de nunca ter corrido mais de uma hora em Timor até à altura e com as dificuldades sentidas perante as agressivas condições climatéricas - agravadas pela hora de calor intenso a que se ia realizar a prova (quatro da tarde) - fizeram-me optar sensatamente pelos 10 km.

Tinha tendência a esquecer-me de que era um tipo "importante" em Dili e já me tinha inscrito para a corrida quando o vice-presidente da FAT me disse: "Estava a contar com o senhor para ficar ao lado do ministro na bancada, como representante do [ai-ou-ci]!" ([ai-ou-ci], leitura inglesa de "IOC", que são as iniciais de International Olympic Committee). Eu achei que realmente não podia fazer tal desfeita... e respondi que claro que estaria na bancada para a abertura da prova, que depois ia à cabine telefónica trocar para o fato de Super-Buli e ia fazer a corrida.



Chegado o dia da prova, lá estive então com o Secretário de Estado da Juventude, Cultura e Desporto, Virgílio Smith, com o administrador do Distrito de Dili, Ruben Carvalho, e com o presidente da Federação Atletismo de Timor Leste, Ahmad Alkatiri (irmão do primeiro-ministro de Timor Leste, como os leitores mais bem informados poderão suspeitar pelo nome).

Estranhamente, a hora de partida para a corrida, ao contrário do habitual atraso timorense, sofreu um adiantamento de cerca de meia hora, o que estragou um pouco a minha programação para digerir o almoço (não muito abundante), para além de obrigar os atletas a suportarem temperaturas mais elevadas. Quando se ia dar a partida para a primeira corrida (3 km) pedi desculpa aos meus companheiros VIP e ausentei-me, explicando que ia participar na prova de 10 km e que tinha de me ir preparar.

CORRIDA DE 3 KM

A corrida de 3 km, orientada para atletas juvenis das escolas, teve um participante internacional - o Colin - que, desejando participar no evento mas conhecendo as limitações das suas capacidades físicas, pediu para participar "extra-competição". A participação de um tipo alto no meio dos miúdos proporcionou algumas imagens engraçadas que até mereceram publicação (a da chegada) no Timor Post, um dos jornais timorenses.



CORRIDA DE 10 KM

À falta de cabine telefónica adequada (elas até existem, mas são todas abertas, nada ao estilo Super-Homem, e, já agora, nenhuma está em funcionamento), visto que a cerimónia de abertura se realizava mesmo junto às instalações da Confederação de Desportos, onde eu trabalhava no dia a dia, passei pelo meu gabinete para trocar de roupa e lá me apresentei na partida, muito bem disposto.


A partida para a corrida foi estilo estoiro da manada, com o pessoal a sair disparado como se se tratasse de uma corrida de 1000 metros! Eu parti cauteloso (até porque não sabia bem em que forma estava, nem qual seria a influência do almoço parcialmente digerido, nem qual seria o efeito do calor), divertidíssimo com o ambiente envolvente.



Foi interessante notar padrões de equipamentos desportivos bastante diferentes daqueles a que estou habituado no "mundo desenvolvido", com muitos atletas a correrem com calçado pouco apropriado para a corrida e bastantes a correrem descalços...



Com arranque tão acelerado por parte dos meus colegas de corrida, obviamente fiquei um pouco para trás na fase inicial, talvez aí pela 100ª posição. Praticamente desde o início comecei a ultrapassar atletas e, pela primeira vez numa corrida de estrada em que tenha participado, fui vendo sempre a frente da corrida, composta por dez atletas, que tive oportunidade de contar quando passei a estar aí por volta de 14º.

Ao fim de perto de 2 km passei a 11º, a uns 50 metros do grupo da frente. Foi então que vi alguma confusão entre os atletas da frente, que tencionavam seguir em frente na estrada em que estávamos (a caminho do aeroporto de Comoro) enquanto pessoas da organização lhes diziam que deveriam virar à direita. Quando passei por esse ponto, uma das pessoas da organização aproximou-se de mim e deu-me uma pancada no peito. Olhei e percebi: "Ah, ok, o tipo carimbou-me para garantir que passei neste ponto! Que forma estranha de o fazerem..."

Na hesitação dos atletas da frente quanto ao percurso a seguir, acabei por me aproximar deles e, apesar de também achar que era para seguir em frente, decidi virar à direita, atento a outros sinais que pudessem surgir. Depois percebi que afinal a "culpa" era nossa, dos atletas, que não tínhamos ligado nenhuma ao esquema dos percursos das diferentes provas...



Fiquei então em 5º na corrida, muito próximo dos 4 primeiros. Pouco depois passei um atleta e colei-me ao 3º, altura em que, para meu espanto, estava a discutir um lugar no pódio daquela magnífica prova de âmbito internacional (com participação de um monte de timorenses e de um português... :) ).

Íamos aí com uns 3 ou 4 kms de prova quando comecei a sentir uma antipática "dor-de-burro", provavelmente consequência do tal almoço mal digerido. E o calor, apesar de menor do que esperava inicialmente, também afectava o meu estado físico. Comecei a entrar no modo vamos-lá-a-ver-se-me-aguento. Para fazer face ao meu estado de algum sofrimento, o meu espírito positivo de estranhos mecanismos mentais, ainda com algumas dúvidas quanto ao percurso correcto, ainda imaginou que talvez tivéssemos cortado lá atrás uns 5 ou 6 km ao percurso e se calhar íamos fazer a prova de 10 km em apenas 4 ou 5 e acabar num instante... Até comecei a imaginar qual seria a reacção dos organizadores quando nos vissem a entrar no troço final ao fim de uns 15 ou 20 minutos de corrida! :)

Mas na verdade os organizadores é que tinham razão, e quando chegámos perto da meta seguimos em frente para fazer mais uns quilómetros, na estrada a caminho da praia da Areia Branca. Eu lá ia com a mão direita a pressionar o abdómen, a tentar aliviar a dor, e acompanhava o atleta com quem antecipava uma disputa pelo 4º lugar, já que entretanto tínhamos sido ultrapassados por outro atleta. Não fazia a mínima ideia em que ponto é que íamos voltar para trás... e só desejava que não faltasse muito.

Lá demos a volta, ao que parece, uns 500 metros antes do ponto correcto, pelo que a corrida de 10 km passou a 9 km (explicando o meu "recorde pessoal" no tempo final). Nesse ponto estavam alguns elementos da organização, um dos quais se atravessou à minha frente com cara divertida, a parecer que me queria pregar uma partida e agarrar-me... Tive logo o reflexo de fazer um zigue-zague (rapidíssimo e eficaz para fugir, graças a horas e horas de jogar à apanhada na minha infância)... e só uns metros depois percebi que afinal o tipo queria era carimbar-me de novo para certificar que eu tinha passado ali! Já não voltei para trás e confiei que os organizadores não iriam acreditar que o "Xenhor Nuno do [ai-ou-ci]" tinha aldrabado o percurso.

Nessa altura o meu companheiro de corrida já me tinha deixado para trás (em 5º) e comecei a reparar num atleta que parecia não se sentir muito bem... Lá coloquei a minha fasquia pessoal de novo no 4º lugar, apesar de não me estar a sentir melhor.

Pouco depois, lá à frente, ainda bastante longe de onde eu achava que estava a meta, apareceu uma multidão a ocupar toda a largura da estrada em que estávamos a correr. Pensei: "O quê?! Será que puseram a meta aqui??" A minha imaginação fértil novamente em acção levou-me a pensar que aquilo devia ser mesmo a meta... e acelerei para um mini-sprint final e passar para 4º lugar. Rapidamente me apercebi de que se tratava afinal de uma procissão religiosa que por ali passava... ocupando toda a estrada onde os atletas pretendiam correr! Pelo menos, o arranque naquele momento em que acreditei que aquilo talvez fosse mesmo a meta serviu para deixar o outro atleta para trás, e lá corri pela berma para passar ao lado da procissão.

Daí até perto da meta, com o entusiasmo do fim que se aproximava, comecei a sentir-me ligeiramente melhor. E a poucos metros do fim, quando os meus amigos da federação de atletismo me viram em 4º lugar e começaram a rir-se de espanto, veio aquela energia final para acabar em velocidade mais atractiva, muito bem disposto.

Acabada a prova e cumprimentados os colegas atletas, percebi que ainda faltava um bocado para o fim da meia-maratona e decidi ir a casa tomar um duche para estar apresentável na zona VIP para a entrega de prémios (vantagens de morar a 4 minutos a pé da zona da meta!). Um quarto de hora depois lá estava eu pronto para entregar umas taças junto à malta importante.



Concluí que tinha sido óptimo ficar em 4º lugar, porque assim não tinha de receber nenhum troféu e podia dedicar-me à distribuição!



CORRIDA DE 21 KM

A prova principal - a meia-maratona - contou com a participação dos melhores atletas de Timor Leste, com destaque para a Aguida Amaral (a mais baixinha na foto de partida) e para o Calisto da Costa, ambos digníssimos participantes nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000 (sob a bandeira olímpica, visto que Timor Leste não era ainda um país independente).



O Calisto, ainda muito jovem (22 anos?), é o provável representante timorense na maratona olímpica em Atenas 2004. Na maratona feminina espera-se que participe a Mariana Ximenes, novo valor que venceu a Aguida nesta meia-maratona e que já representou Timor Leste nos Jogos Asiáticos em 2002.

RESCALDO

Acabada a corrida e dispersada a multidão... ficou à vista uma lixarada composta fundamentalmente de garrafas de água vazias. Pensei: "Humm... Estou curioso de ver como é que isto vai desaparecer daqui! Será que vem alguém fazer limpeza?". Para minha admiração, os voluntários da federação de atletismo começaram a acumular o lixo num monte, e alguns atletas puseram-se também a trabalhar (claro que colaborei). Passei a perguntar-me: "Então e quem é que vai tirar este monte daqui?". A resposta surgiu rapidamente, quando alguém incendiou o monte.



Ainda duvidei que aquele sistema resultasse, pensando que o fogo se apagaria rapidamente deixando muito lixo por consumir... mas na segunda-feira seguinte pude confirmar que tinha sido "uma limpeza". Impressionante.

Foi então que se fez luz e percebi porque é que nas minhas corridas matinais me fartava de apanhar com fumo de fogueiras por toda a cidade: de manhã o pessoal dedica-se ao "processamento" do seu lixo doméstico, que é queimado ao lado de casa!

Pode não ser uma forma muito limpa de processar o lixo... mas, tendo em conta a ausência de serviços de recolha de resíduos urbanos, não me parece uma má solução. Tem algo de muito positivo: o tratamento de lixo é tão distribuído (cada pessoa trata do seu próprio lixo) que todos são responsabilizados e ninguém se pode queixar da incineradora que foi instalada ao lado de sua casa para tratar o lixo de 100 mil pessoas que moram longe dali!


Fotos fornecidas pelo Timor Post e por Taku Yamaguchi